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KYC no Setor Bancário e nas Criptomoedas: Um Incômodo Necessário ou Proteção Essencial?

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O mundo financeiro tem experimentado mudanças rápidas, impulsionadas em grande parte pelos avanços tecnológicos e pela ascensão das moedas digitais. Em meio a essas transformações, o conceito de “Conheça Seu Cliente” (KYC) tornou-se cada vez mais importante tanto no setor bancário tradicional quanto no de criptomoedas. Embora muitos clientes vejam os procedimentos de KYC como tediosos e intrusivos, esses processos são fundamentais para proteger as instituições financeiras, salvaguardar os consumidores e manter a integridade do sistema financeiro global. Neste artigo, compartilharei minha perspectiva sobre o estado atual das práticas de KYC, destacando sua importância, examinando os desafios que apresentam e sugerindo maneiras de aprimorá‑las.

A ideia por trás do KYC não é nova. Os bancos há muito tempo são obrigados a verificar a identidade de seus clientes e avaliar os riscos potenciais associados às suas atividades financeiras. Essas exigências decorrem de regulamentos internacionais projetados para combater crimes financeiros como lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo, fraude e evasão fiscal. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), entre 2% e 5% do PIB global — aproximadamente US$ 800 bilhões a US$ 2 trilhões — são lavados a cada ano. Esses números alarmantes ressaltam a necessidade de procedimentos robustos de KYC para detectar e prevenir atividades financeiras ilícitas.

Nos bancos tradicionais, o KYC normalmente envolve a coleta e verificação de documentos de identificação pessoal, comprovante de endereço, histórico financeiro e detalhes sobre as operações comerciais. Os bancos também monitoram continuamente as transações dos clientes para identificar atividades suspeitas. Embora esses processos possam ser demorados e frustrantes para os clientes, eles são essenciais para que os bancos cumpram exigências regulatórias rigorosas, como a Lei de Sigilo Bancário (BSA) nos Estados Unidos, as Diretivas da União Europeia de Combate à Lavagem de Dinheiro (AMLD) e as diretrizes emitidas pelo Grupo de Ação Financeira Internacional (FATF).

O surgimento das criptomoedas introduziu novas complexidades no panorama do KYC. As criptomoedas oferecem, por natureza, um grau de anonimato e descentralização que os sistemas financeiros tradicionais não possuem. Esse anonimato tornou as moedas digitais atraentes para criminosos que buscam lavar dinheiro ou financiar atividades ilegais. De acordo com a TRM Labs, em 2024, o volume de transações de cripto cresceu para mais de US$ 10,6 trilhões, um aumento de 56% em relação a 2023. O volume ilícito caiu para US$ 45 bilhões, uma redução de 24% desde 2023. No relatório de crimes com cripto de 2025, divulgado em 10 de fevereiro, a empresa afirmou que o volume de transações ilícitas diminuiu 24% ao ano, chegando a US$ 44,7 bilhões (S$ 60 bilhões) em 2024, embora o uso no financiamento ao terrorismo tenha aumentado. Também destacou que uma preocupação particular é o papel crescente das criptomoedas para a afiliada do ISIS no Afeganistão, a Província de Córsega do Estado Islâmico (ISKP). Essa tendência preocupante levou reguladores em todo o mundo a impor requisitos mais rigorosos de KYC e de Combate à Lavagem de Dinheiro (AML) em exchanges de criptomoedas e provedores de serviços de ativos virtuais (VASPs).

O FATF introduziu a “travel rule”, exigindo que os VASPs coletem e compartilhem informações específicas sobre as transações de seus clientes, incluindo nomes, endereços, números de conta, valores das transações e finalidades das mesmas. Embora essas recomendações não sejam juridicamente vinculativas, muitas jurisdições as adotaram ou estão atualmente em processo de implementação. A travel rule visa aumentar a transparência nas transações de criptomoedas, dificultando que criminosos explorem moedas digitais para fins ilícitos. Na minha opinião, isso deve ser aplicado de forma rigorosa.

Apesar dos claros benefícios do KYC tanto nos setores bancário quanto no de criptomoedas, vários desafios permanecem. Um problema significativo é a falta de padronização nos processos de KYC entre diferentes jurisdições e instituições. Essa inconsistência pode confundir os clientes e gerar ineficiências para as instituições financeiras. Por exemplo, um cliente pode ser solicitado a enviar diferentes conjuntos de documentos e informações para vários bancos ou exchanges de criptomoedas, causando atritos e frustrações desnecessárias.

Outro desafio é o ambiente regulatório em rápida evolução que envolve as criptomoedas. As regulamentações variam significativamente de país para país, e novas regras são frequentemente introduzidas ou alteradas. Esse cenário dinâmico dificulta que as empresas de criptomoedas mantenham a conformidade e implementem procedimentos eficazes de KYC.

A verificação de identidade na indústria de criptomoedas também apresenta dificuldades únicas. A natureza pseudônima de muitas criptomoedas, combinada com carteiras descentralizadas e tecnologias que aumentam a privacidade, complica a tarefa de identificar com precisão os usuários. Métodos tradicionais de verificação de identidade, como documentos emitidos pelo governo e comprovantes de endereço, podem nem sempre ser suficientes ou aplicáveis no contexto de moedas digitais. Como resultado, as empresas de criptomoedas precisam explorar soluções inovadoras, como verificação biométrica, sistemas de identidade baseados em blockchain e ferramentas avançadas de análise, para aprimorar suas capacidades de KYC.

Equilibrar segurança e experiência do usuário é outra consideração crítica. Embora processos rigorosos de KYC sejam necessários para prevenir crimes financeiros, procedimentos excessivamente onerosos podem impactar negativamente a satisfação do cliente e desencorajar usuários potenciais. Com base em um grupo de feedback fechado ao qual participei na Coreia do Sul, mais de 80% dos membros do grupo relataram que abandonariam processos de onboarding digital devido à complexidade ou extensão. Portanto, instituições financeiras e empresas de criptomoedas devem buscar simplificar seus processos de KYC, aproveitando a tecnologia para automatizar tarefas de verificação, reduzir intervenções manuais e proporcionar uma experiência de usuário fluida.

A comprovação de fundos é outro aspecto essencial do KYC, particularmente na indústria de criptomoedas. Demonstrar capacidade financeira por meio de extratos bancários, cartas de crédito ou saldos de carteiras de criptomoedas ajuda as empresas a avaliar a legitimidade das transações e mitigar riscos associados a fraudes e lavagem de dinheiro. Verificar a comprovação de fundos no contexto das criptomoedas pode ser desafiador devido à volatilidade dos ativos digitais e à dificuldade de avaliar com precisão a propriedade das carteiras e o histórico de transações. Desenvolver métodos e ferramentas padronizados para verificar a comprovação de fundos em transações de criptomoedas é crucial para melhorar a transparência e a confiança no setor.

Do meu ponto de vista, embora os processos de KYC possam parecer intrusivos e onerosos, sua importância não pode ser subestimada. Crimes financeiros representam ameaças significativas à estabilidade econômica global, à segurança nacional e à confiança pública nas instituições financeiras. Procedimentos robustos de KYC são essenciais para detectar e prevenir esses crimes, proteger os consumidores e manter a integridade do sistema financeiro. Existe considerável espaço para melhorias na forma como os processos de KYC são implementados, especialmente na indústria de criptomoedas.

Reguladores, instituições financeiras e empresas de criptomoedas devem colaborar para desenvolver estruturas de KYC padronizadas, claras e consistentes. A cooperação internacional e a harmonização das regulamentações podem ajudar a reduzir confusões e ineficiências, facilitando a conformidade das empresas e a navegação dos clientes nos processos de onboarding. Além disso, investir em tecnologias inovadoras, como sistemas de verificação de identidade baseados em blockchain, inteligência artificial e aprendizado de máquina, pode melhorar significativamente a eficácia e a eficiência dos procedimentos de KYC.

As instituições financeiras e as empresas de criptomoedas também precisam priorizar a experiência do usuário ao projetar e implementar processos de KYC. Simplificar os procedimentos de onboarding, minimizar intervenções manuais e fornecer orientações e suporte claros aos clientes pode ajudar a reduzir a frustração e as taxas de abandono. Ao encontrar o equilíbrio certo entre segurança, conformidade e experiência do usuário, as empresas podem construir confiança e credibilidade com seus clientes e reguladores, impulsionando, em última instância, o crescimento e a inovação no setor financeiro.

Em conclusão, os processos de KYC são um incômodo necessário no complexo cenário financeiro atual. Embora possam ser percebidos como intrusivos e onerosos, seu papel na prevenção de crimes financeiros, na proteção dos consumidores e na manutenção da integridade do sistema financeiro global é inquestionável. Ao enfrentar os desafios relacionados à padronização, clareza regulatória, verificação de identidade e experiência do usuário, instituições financeiras e empresas de criptomoedas podem aprimorar a eficácia de seus procedimentos de KYC, promovendo maior transparência, confiança e segurança na indústria financeira. À medida que continuamos a navegar pelo cenário em evolução das finanças digitais, adotar práticas de KYC robustas e eficientes será essencial para proteger nosso futuro financeiro.

Anndy Lian é o Chief Digital Advisor da Mongolian Productivity Organisation e parceiro e gestor de fundos que supervisiona investimentos em blockchain para a Passion Venture Capital Pte. Ltd. Um dos primeiros adotantes de blockchain, investidor e empreendedor, ele assessorou governos, empresas públicas e organizações em toda a Ásia sobre ativos digitais, tecnologias emergentes e estratégia de inovação. Ele atuou anteriormente como Chairman da BigONE Exchange e como membro do Conselho Consultivo da Hyundai DAC, a divisão de blockchain do Hyundai Motor Group. Lian é autor do best‑seller Blockchain Revolution 2030 e do recém‑lançado Web4: The Age of Autonomous Intelligence, que explora a convergência entre inteligência artificial e blockchain como base para a próxima geração da internet. Por meio de seus escritos e trabalhos de consultoria, ele foca no futuro dos sistemas descentralizados, agentes de IA autônomos, soberania digital e na evolução das finanças digitais.