Regulação
FTX: audiência do Senado com o presidente da CFTC em dezembro de 2022

Em 1º de dezembro de 2022, um dia depois da participação remota de Sam Bankman-Fried, ex-dirigente da plataforma de criptoativos em colapso FTX, em uma entrevista ao vivo no evento DealBook, o Comitê de Agricultura, Nutrição e Florestas do Senado dos EUA realizou uma audiência intitulada “Por que o Congresso precisa agir: lições do colapso da FTX”.Rostin Behnam, então presidente da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), prestou depoimento na audiência de cerca de três horas. O relato a seguir descreve o debate de dezembro de 2022.
A presidente do comitê, senadora Debbie Stabenow, destacou uma lacuna na supervisão federal de mercado. Seu argumento pode ser resumido assim:Faltava um regime federal abrangente de supervisão do mercado à vista de criptoativos que não fossem valores mobiliários. Ela citou bitcoin e ether e pediu uma resposta do Congresso. Essa era sua avaliação em 2022, não uma decisão permanente sobre todos os produtos nem a afirmação de que nenhuma regra se aplicava.
Os senadores questionam o presidente da CFTC
John Boozman, principal integrante do partido minoritário no comitê, elogiou a supervisão da CFTC sobre o mercado de futuros e propôs aproveitar essa experiência. Pediu uma análise de como o Digital Commodities Consumer Protection Act (DCCPA), também chamado de projeto Stabenow-Boozman, poderia enfrentar riscos como os observados na FTX. Tratava-se de um projeto, não de uma lei em vigor; a ampliação de competências dependia do Congresso.
Behnam defendeu uma estrutura regulatória coerente. Explicou que a CFTC não tinha competência geral para registrar e supervisionar continuamente plataformas à vista de ativos digitais classificados como commodities, e não valores mobiliários. A agência já supervisionava derivativos e dispunha de poderes mais limitados contra fraude e manipulação. A SEC e outras autoridades mantinham suas respectivas atribuições.
Amy Klobuchar questionou o uso de redes sociais, celebridades e influenciadores para estimular o interesse em criptoativos. Citando alertas da FTC sobre golpes, cobrou colaboração entre CFTC, SEC e FTC. Em fevereiro de 2022, Klobuchar e Cynthia Lummis haviam apresentado o Social Media NUDGE Act, projeto bipartidário sobre estudos e medidas contra dependência e amplificação algorítmica de conteúdo prejudicial. Não era uma lei já aprovada.
Roger Marshall afirmou que 90% das vendas de drogas na dark web eram pagas com criptomoedas e associou isso a preocupações com lavagem de dinheiro, tráfico de pessoas e segurança nacional. O número era uma alegação dele; Behnam declarou não conhecer as estatísticas. Isso não significava que 90% das transações com cripto fossem criminosas. O financiamento ilícito também pode passar por bancos e moedas tradicionais, sem que isso elimine a necessidade de fiscalizar os criptoativos.
Tommy Tuberville perguntou sobre reuniões e mensagens entre Behnam e Bankman-Fried. Behnam confirmou os contatos e disse que tratavam da análise de um pedido, de seu andamento e de informações adicionais. Discutir um pedido não equivale a aprová-lo nem a autorizar todas as operações da FTX.
Sherrod Brown destacou a rapidez da quebra, as questões sobre uso indevido de recursos de clientes, os conflitos de interesses e a transmissão de problemas a outras empresas. Citou sua carta da véspera à secretária do Tesouro Janet Yellen e defendeu regras que protegessem consumidores e o sistema financeiro tradicional, em vez de priorizar as empresas de cripto.
Charles Grassley perguntou sobre a divulgação da agenda de Behnam. Este mencionou dez reuniões com Bankman-Fried e sua equipe em quatorze meses, além de outros contatos sobre a câmara de compensação regulada LedgerX e seu pedido. Distinguiu isso das atividades à vista e offshore da FTX. A LedgerX era uma entidade separada, registrada na CFTC, e não integrava os pedidos de falência do grupo naquele momento.
Cory Booker via oportunidades na tecnologia para pessoas mal atendidas pelos bancos. Abordou o DCCPA e a influência atribuída a Bankman-Fried. Antes do colapso, ele havia sido um defensor do texto e fornecera sugestões. Booker ressaltou, porém, que muitas empresas, pesquisadores e especialistas em políticas públicas também tinham sido ouvidos. Rejeitou, portanto, reduzir o projeto Stabenow-Boozman a um simples “projeto SBF” ou “projeto FTX”. A participação de um interessado não comprova, por si só, que ele controlava a elaboração da proposta.
O que o debate de dezembro de 2022 mostrou
A audiência discutiu proteção de clientes, conflitos de interesses e competências de supervisão. Não aprovou novas regras por si só. Na publicação deste artigo, em 2 de dezembro de 2022, esperavam-se outras audiências e uma possível participação de Bankman-Fried. Essa era uma expectativa histórica, não um anúncio de eventos futuros na atualidade.












