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Perspectiva de Gary Gensler sobre Criptomoedas: Por que o Bitcoin não é um valor mobiliário, mas se recusa a dizer que é uma commodity?

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O presidente da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), Gary Gensler, tem sido manchete no espaço cripto com suas declarações sobre o status regulatório de vários ativos digitais.Ele afirmou repetidamente que o Bitcoin é uma commodity, mas tem relutado em dizer o mesmo sobre outras criptomoedas, especialmente aquelas que foram emitidas por meio de ofertas iniciais de moedas (ICOs) ou que possuem algum tipo de mecanismo de governançaEle também expressou preocupações sobre stablecoins e seu potencial impacto no sistema financeiro. Quais são suas intenções por trás dessas declarações? Ele está tentando proteger os investidores, sufocar a inovação ou algo mais?

Vou tentar analisar as visões e motivações de Gensler a partir de uma perspectiva opinativa, com base em seus discursos públicos, entrevistas e depoimentos. Também discutirei as implicações de sua postura para a indústria de cripto e para os investidores.

Histórico e Filosofia de Gensler

Antes de se tornar presidente da SEC, Gensler teve uma carreira longa e distinta tanto no setor público quanto no privado. Foi sócio da Goldman Sachs por 18 anos, onde ocupou várias posições de liderança em negociação, finanças e tecnologia. Também atuou como subsecretário do Tesouro para finanças domésticas e como secretário assistente do Tesouro para mercados financeiros sob o presidente Bill Clinton. O presidente Barack Obama o nomeou posteriormente como presidente da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), onde supervisionou a implementação do Dodd-Frank Act e a regulação dos mercados de derivativos após a crise financeira de 2008.

Gensler também é acadêmico e educador. É professor de prática de economia global e gestão na MIT Sloan School of Management, onde ministra cursos sobre tecnologia blockchain, moedas digitais, inovação financeira e política pública. Também é conselheiro sênior da Digital Currency Initiative do MIT Media Lab.

Alguns observadores o descrevem como um regulador “crypto‑friendly”, dada sua expertise e interesse na área. Ele reconheceu os potenciais benefícios da tecnologia blockchain e dos ativos digitais para inovação, eficiência, inclusão e competição. Também elogiou o Bitcoin como um “catalisador de mudança” e um “estoque escasso de valor” que não é controlado por nenhum governo ou autoridade central.

No entanto, ele também é um regulador “crypto‑savvy” que entende os riscos e desafios apresentados pela indústria nascente. Ele enfatizou a necessidade de proteção ao investidor, integridade de mercado, estabilidade financeira e segurança nacional no espaço cripto. Também alertou sobre a prevalência de fraude, manipulação, hacking, lavagem de dinheiro, evasão fiscal e financiamento ao terrorismo no ecossistema cripto.

Na minha opinião pessoal, a filosofia de Gensler parece basear‑se em dois princípios principais: primeiro, que todo produto ou serviço financeiro deve estar sujeito a alguma forma de regulação ou supervisão; e segundo, que as leis e regras existentes devem ser aplicadas de forma consistente e justa a todos os participantes do mercado.

Posição de Gensler sobre o Bitcoin

A posição de Gensler sobre o Bitcoin é relativamente direta e consistente. Ele afirmou repetidamente que o Bitcoin não é um valor mobiliário sob as leis federais de valores mobiliários, mas sim uma commodity sob o Commodity Exchange Act (CEA). Isso significa que o Bitcoin está sob a jurisdição da CFTC, não da SEC.

Essa classificação baseia‑se no teste Howey da Suprema Corte, que determina se um ativo é um valor mobiliário ou não com base em se envolve um investimento de dinheiro em uma empresa comum com expectativa de lucro derivado dos esforços de terceiros. O Bitcoin não atende a esse critério porque não possui emissor ou promotor que controle sua oferta ou valor. Também é descentralizado e distribuído entre seus usuários, que validam transações e asseguram a rede por meio da mineração proof‑of‑work.

Sua visão está alinhada com a de seus predecessores na SEC e na CFTC, que também reconheceram o Bitcoin como uma commodity. Também reflete a realidade de como o Bitcoin opera e funciona no mercado. Isso não significa que o Bitcoin esteja livre de qualquer regulação ou supervisão. Como commodity, o Bitcoin está sujeito a disposições anti‑fraude e anti‑manipulação sob o CEA e as leis de valores mobiliários. Também está sujeito a requisitos de relatórios e manutenção de registros sob o Bank Secrecy Act e o Patriot Act. Além disso, derivativos de Bitcoin, como futuros e opções, são regulados pela CFTC como contratos de commodities. E as exchanges, plataformas, carteiras e custodiante de Bitcoin são regulados por várias agências estaduais e federais como transmissores de dinheiro, corretoras ou consultores de investimento.

A intenção de Gensler por trás de sua postura sobre o Bitcoin parece ser reconhecer sua natureza única e inovação, ao mesmo tempo garantindo que esteja sujeito a regras e padrões adequados que protejam os investidores e o interesse público.

Posição de Gensler sobre Outras Criptomoedas

Em seguida, sua posição sobre outras criptomoedas. É menos clara e mais matizada. Ele indicou que muitas delas deveriam ser consideradas valores mobiliários sob as leis federais de valores mobiliários, mas não especificou quais ou como determinar seu status. Também sugeriu que algumas podem ser commodities ou instrumentos híbridos que se enquadram na jurisdição da SEC e da CFTC.

A posição de Gensler baseia‑se em sua interpretação do teste Howey, que ele acredita aplicar à maioria dos tokens cripto emitidos por meio de ICOs ou que possuem algum tipo de mecanismo de governança. Ele argumenta que esses tokens envolvem um investimento de dinheiro em uma empresa comum com expectativa de lucro derivado dos esforços de terceiros, como desenvolvedores, promotores ou validadores da rede.

Sua visão está consistente com a da equipe da SEC, que emitiu vários documentos de orientação e ações de aplicação contra diversos projetos cripto que consideraram ofertas de valores mobiliários sem registro ou isenção adequados. Também é apoiada por alguns tribunais federais que aplicaram o teste Howey a tokens cripto em casos civis e criminais.

No entanto, sua abordagem não é universalmente aceita ou aplicada. Alguns projetos cripto contestaram a autoridade ou interpretação da SEC em tribunal ou por meio de procedimentos administrativos. Alguns também buscaram clareza ou alívio da SEC por meio de cartas de não‑ação ou propostas de porto‑seguro. Outros argumentaram que seus tokens não são valores mobiliários, mas sim commodities, moedas, tokens de utilidade ou tokens de rede que servem a um propósito ou função diferente de contratos de investimento.

A intenção de Gensler por trás de sua postura sobre outras criptomoedas parece ser afirmar a jurisdição e o mandato da SEC sobre um grande segmento da indústria cripto que ele acredita representar riscos significativos para os investidores e o mercado. Ele também parece buscar mais cooperação e coordenação da indústria cripto para cumprir as leis e regras existentes ou buscar isenções ou dispensas adequadas.

Posição de Gensler sobre Stablecoins

A posição de Gensler sobre stablecoins também é incerta e complexa. Ele expressou preocupações sobre stablecoins e seu potencial impacto no sistema financeiro, mas não propôs nenhum quadro regulatório ou abordagem específica para elas. Também indicou que algumas stablecoins podem ser valores mobiliários, enquanto outras podem ser commodities ou instrumentos híbridos que se enquadram tanto na jurisdição da SEC quanto da CFTC.

Stablecoins são ativos digitais projetados para manter um valor estável em relação a outro ativo, como uma moeda fiduciária, uma commodity ou uma cesta de ativos. São frequentemente usados como meio de troca, reserva de valor ou unidade de conta no espaço cripto. Também são usados como ponte entre diferentes blockchains ou plataformas. Existem diferentes tipos de stablecoins, como respaldadas por fiat, respaldadas por cripto, algorítmicas ou híbridas.

A posição de Gensler baseia‑se em sua avaliação dos riscos e desafios que as stablecoins apresentam ao sistema financeiro. Ele destacou questões de transparência, responsabilidade, governança, liquidez, solvência, integridade de mercado, proteção ao consumidor e estabilidade sistêmica que surgem das stablecoins. Também alertou sobre o potencial das stablecoins facilitarem atividades ilícitas, como lavagem de dinheiro, evasão fiscal e financiamento ao terrorismo.

Sua perspectiva é compartilhada por outros reguladores e formuladores de políticas que também expressaram preocupações sobre stablecoins e suas implicações para o sistema financeiro. O Financial Stability Board (FSB), órgão internacional que monitora e faz recomendações sobre o sistema financeiro global, publicou um relatório sobre stablecoins que delineia 10 recomendações de alto nível para sua regulação e supervisão. O President’s Working Group on Financial Markets (PWG), grupo de altos funcionários dos EUA que assessora o presidente em questões financeiras, também emitiu uma declaração sobre stablecoins que pede um quadro regulatório abrangente para elas.

No entanto, a visão de Gensler ainda não se traduziu em nenhuma ação ou proposta concreta. Ele afirmou que está trabalhando com seus colegas reguladores na CFTC, no Federal Reserve, no Departamento do Tesouro e em outras agências para abordar as questões levantadas pelas stablecoins. Também declarou estar aberto a dialogar com o Congresso e a indústria para desenvolver um regime regulatório claro e consistente para as stablecoins.

Implicações de Gensler para a Indústria Cripto e os Investidores

A postura de Gensler sobre o Bitcoin, outras criptomoedas e stablecoins tem implicações significativas para a indústria cripto e os investidores. Dependendo de como ele implementa sua visão e de como a indústria responde, sua postura pode ter efeitos positivos ou negativos na inovação, crescimento e adoção do espaço cripto.

Do lado positivo, a postura de Gensler poderia proporcionar mais clareza, certeza e legitimidade para a indústria cripto e os investidores. Ao aplicar as leis e regras existentes ao espaço cripto, Gensler poderia criar um campo de jogo nivelado para todos os participantes do mercado e fomentar competição justa e cooperação. Ao impor conformidade e responsabilidade, poderia melhorar a proteção ao investidor e a integridade do mercado e reduzir fraudes e manipulações. Ao dialogar com o Congresso e a indústria, ele poderia desenvolver ainda mais um quadro regulatório abrangente e consistente para o espaço cripto que equilibre inovação e regulação.

Do lado negativo, a postura de Gensler também poderia impor mais desafios, custos e barreiras para a indústria cripto e os investidores. Ao afirmar a jurisdição e o mandato da SEC sobre um grande segmento do espaço cripto, Gensler poderia gerar mais confusão, incerteza e conflito entre diferentes reguladores e jurisdições. Ao impor requisitos de registro e relatórios, Gensler poderia aumentar a carga regulatória e a complexidade para projetos e plataformas cripto. Ao iniciar ações de aplicação e litígios, Gensler poderia desencorajar a inovação e o investimento no espaço cripto.

Conclusão

Em conclusão, a postura de Gensler sobre o Bitcoin, outras criptomoedas e stablecoins reflete seu histórico, filosofia e intenções como presidente da SEC. Ele é um regulador “crypto‑friendly”, mas também “crypto‑savvy”, que entende os potenciais benefícios e riscos da indústria nascente. Também é um regulador pragmático, porém principista, que acredita na aplicação consistente e justa das leis e regras existentes ao espaço cripto.

É importante notar que sua postura tem implicações significativas para a indústria cripto e os investidores. Ela pode proporcionar mais clareza, certeza e legitimidade para o espaço cripto, mas também pode impor mais desafios, custos e barreiras para o espaço cripto. O resultado final de sua postura dependerá de como ele implementa sua visão e de como a indústria responde às suas ações.

Anndy Lian é o Chief Digital Advisor da Mongolian Productivity Organisation e parceiro e gestor de fundos que supervisiona investimentos em blockchain para a Passion Venture Capital Pte. Ltd. Um dos primeiros adotantes de blockchain, investidor e empreendedor, ele assessorou governos, empresas públicas e organizações em toda a Ásia sobre ativos digitais, tecnologias emergentes e estratégia de inovação. Ele atuou anteriormente como Chairman da BigONE Exchange e como membro do Conselho Consultivo da Hyundai DAC, a divisão de blockchain do Hyundai Motor Group. Lian é autor do best‑seller Blockchain Revolution 2030 e do recém‑lançado Web4: The Age of Autonomous Intelligence, que explora a convergência entre inteligência artificial e blockchain como base para a próxima geração da internet. Por meio de seus escritos e trabalhos de consultoria, ele foca no futuro dos sistemas descentralizados, agentes de IA autônomos, soberania digital e na evolução das finanças digitais.