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Do Kwon suspeitava de vazamento na TFL e preparava defesa jurídica

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O colapso da Terra em maio de 2022 continuava afetando investidores e outras partes envolvidas no verão daquele ano. Do Kwon, cofundador do ecossistema, falou sobre suas próprias perdas em entrevista a Zack Guzman, do veículo de criptoativos Coinage. O primeiro episódio foi publicado na segunda-feira, 15 de agosto de 2022. Kwon disse estar “infinitamente no prejuízo”. A expressão descrevia sua percepção da perda, não uma prestação de contas sobre seu patrimônio.

Os dois primeiros episódios da entrevista

Zack Guzman encontrou Kwon em Singapura, para onde ele havia se mudado antes do colapso. Kwon também citou a segurança da família para explicar sua permanência no país. A mudança levantou suspeitas na época, mas a entrevista, por si só, não estabelecia seus motivos nem comprovava a justificativa apresentada.

Kwon afirmou que os acontecimentos de maio também lhe causaram grandes perdas: havia apostado alto e perdido. Não quis informar seu patrimônio naquele momento, alegando que as pessoas não acreditariam no número. Disse não ter lucrado com o colapso do UST e afirmou que ele e sua esposa mantiveram seus tokens durante toda a queda. Eram declarações dele, não uma verificação independente dos bens do casal.

O Anchor não oferecia proteção sustentável

Uma das fragilidades do sistema Terra estava no Anchor, lançado em março de 2021. Tratava-se de um protocolo DeFi, não de um banco convencional. Os depósitos em UST eram promovidos com rendimento anual próximo de 20%, mas esse retorno não era livre de risco nem permanentemente garantido. As receitas do protocolo não bastavam para mantê-lo sem aportes. Quando o UST perdeu a paridade com o dólar e caiu inicialmente para cerca de US$ 0,99, depositantes começaram a sacar por receio de perdas maiores. O preço em questão era o do UST, não o do token LUNA.

Kwon defendeu a taxa do Anchor e afirmou que, nas discussões internas iniciais, havia metas de “vários milhares por cento de juros ao ano”. Ele descrevia propostas de rendimento, não retornos efetivamente obtidos. Como justificativa, citou as taxas muito elevadas oferecidas por outros projetos no mercado DeFi em expansão daquela época.

Com o agravamento da crise, as reservas da Luna Foundation Guard, ou LFG, foram mobilizadas para defender a paridade do UST. Segundo a narrativa da Coinage, a organização anunciou uma aplicação inicial de US$ 1,5 bilhão em 8 de maio de 2022, valor posteriormente elevado a US$ 2,5 bilhões. Esses números se referiam à operação de resgate e aos anúncios feitos naquele momento, não ao patrimônio pessoal de Kwon ou a uma auditoria independente das despesas. A possibilidade de esgotamento das reservas limitadas de criptoativos enfraquecia a confiança no UST.

Kwon contou que a TFL tentou captar outros US$ 2 bilhões oferecendo LUNA com desconto a investidores. Segundo ele, o vazamento do plano intensificou as vendas a descoberto, derrubou o valor dos tokens e inviabilizou a rodada. Essa era sua explicação para os acontecimentos, não uma comprovação independente do efeito do vazamento ou de um ataque coordenado.

Havia um vazamento de informação na TFL?

“Quem poderia ter informação antecipada?” era outra pergunta levantada pela entrevista.

Sem citar nomes, Kwon suspeitou que uma pessoa ou grupo tivesse aproveitado o conhecimento prévio de uma vulnerabilidade temporária. A Coinage descreveu um agente anônimo, ou talvez dois, que teria escolhido com precisão o momento de negociar. A existência de um informante e seu eventual lucro continuavam sendo suspeitas, não fatos comprovados.

Segundo a narrativa da Coinage, a Terraform Labs transferiu recursos entre pools de negociação sem aviso prévio. Pouco depois, agentes não identificados venderam quase US$ 200 milhões em UST. Kwon afirmou que a operação desequilibrou os pools da Curve e que novas vendas aumentaram a pressão sobre a paridade. A observação de transações públicas na blockchain, por si só, não prova vazamento de informação interna.

Kwon fundamentou sua suspeita na afirmação de que apenas funcionários da TFL sabiam antecipadamente da transferência. Ao mesmo tempo, assumiu responsabilidade por “todas as fragilidades que um vendedor a descoberto poderia aproveitar para obter lucro”. Esse reconhecimento não confirmava a identificação de um informante ou a existência comprovada de um vazamento.

As dúvidas sobre a relação com a Chai

Kwon já havia chamado atenção por conflitos com a SEC, autoridade do mercado de valores mobiliários dos EUA, e por sua postura no Twitter. Ele reconheceu que alguns comentários anteriores pareciam “constrangedores” em retrospecto. Sua relação com o aplicativo coreano de pagamentos Chai também foi questionada. O app fora promovido como um uso prático da Terra, embora relatos da época indicassem que a colaboração terminara em 2021.

Kwon ainda usou a Chai como argumento de venda em março de 2022. Na entrevista, disse que, com o crescimento da Terra, simplesmente não prestara muita atenção à Chai e não soubera do fim da relação. A explicação gerou dúvidas devido à proximidade com Daniel Shin, cofundador da Terra também ligado à Chai. Essa conexão, isoladamente, não demonstrava o que Kwon sabia. Segundo o processo criminal posterior nos EUA, porém, os pagamentos da Chai eram processados por sistemas tradicionais e copiados para a blockchain da Terra. A publicidade anterior, portanto, não comprovava liquidação real de pagamentos pela Terra.

Debate sobre a independência da entrevista

Os investimentos de Guzman na Terra levantaram questões sobre sua independência como entrevistador. O crítico de Kwon conhecido como FatManTerra criticou sua postura e o descreveu como um antigo defensor do projeto. Guzman declarou ter perdido dinheiro com UST e LUNA. A Coinage também informou que a Terraform Labs havia investido em sua controladora, a Trustless Media. Tratava-se de um vínculo divulgado, não apenas de uma suspeita de financiamento.

Alguns participantes da comunidade acreditavam que veículos tradicionais poderiam tratar Kwon com mais rigor. Outros consideraram a entrevista excessivamente favorável e disseram que perguntas importantes ficaram sem resposta. Essas reações não permitem determinar a posição da comunidade inteira ou da maioria do público.

Preparação para a defesa jurídica

Em agosto de 2022, Kwon afirmou que promotores sul-coreanos ainda não haviam entrado em contato com ele, mas que pretendia cooperar quando isso ocorresse. Veículos locais noticiaram ao mesmo tempo a contratação de um advogado na Coreia do Sul.

Segundo a cobertura daquele período, documentos sobre a constituição do advogado haviam sido entregues à promotoria local. Algumas pessoas-chave estavam impedidas de deixar o país durante a investigação. Em julho de 2022, os promotores realizaram buscas em empresas ligadas à Terra.

Naquele momento, a Terraform Labs era alvo de apurações da SEC e de autoridades sul-coreanas, além de atenção parlamentar e possíveis ações coletivas de investidores. É preciso distinguir esse contexto de 2022 dos desdobramentos posteriores: em abril de 2024, um júri dos EUA responsabilizou Kwon e a Terraform Labs por fraude em um processo civil. Kwon declarou-se culpado no processo criminal americano em agosto de 2025 e foi condenado a 15 anos de prisão em dezembro de 2025.

Na segunda parte da entrevista, publicada pela Coinage em 19 de agosto de 2022, Kwon reconheceu erros na gestão de risco. Descreveu o colapso como “uma falha muito grave na avaliação de risco” e assumiu responsabilidade por não considerar adequadamente um cenário de fracasso do UST.

“[Terra] não considerou que os riscos para o UST fossem relevantes”, disse ele, segundo o relato da época. A declaração tratava de riscos que não haviam sido plenamente apresentados aos usuários; não significava que fossem de fato pequenos.

O então diretor executivo da Terraform Labs afirmou também que o comportamento dos vendedores de UST era esperado em um mercado e que o colapso do sistema não podia ser atribuído apenas a eles.

“Toda negociação tem efeitos sobre terceiros […] Se a paridade com o dólar se rompeu, você não pode culpar o operador que aproveitou uma oportunidade de mercado”, disse ele, segundo o relato daquele período.

Em agosto de 2022, Kwon ainda falava de seu entusiasmo por criptoativos e Web3 e da intenção de continuar trabalhando no setor por muito tempo. Isso descrevia seus planos daquela época, não a situação jurídica posterior nem uma confirmação de que poderia seguir atuando como antes.

Sam é um especialista em conteúdo financeiro com um grande interesse no espaço de blockchain. Ele trabalhou com várias empresas e veículos de mídia nos campos de Finanças e Cibersegurança.