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Risco quântico nas criptomoedas: o pânico é prematuro

Quando a equipe de pesquisa quântica do Google publicou, em março, um artigo revisando a estimativa de recursos necessários para quebrar a criptografia de curvas elípticas, o setor cripto reagiu de forma um tanto exagerada, chegando a dizer que era o fim do Bitcoin.
Estimativas anteriores concluíam que quebrar a criptografia de curvas elípticas de 256 bits com o algoritmo de Shor exigiria dezenas de milhares de qubits lógicos. Mas a equipe do Google reduziu esse número para menos de 1.200 qubits lógicos: uma redução de 20 vezes no custo estimado do ataque.
Agora que o ataque é mais barato em teoria, como isso afetará os bitcoins na sua carteira daqui a uma década? Afinal, nenhum computador quântico na Terra está nem remotamente perto de sustentar 1.200 qubits lógicos tolerantes a falhas.
Sem querer bancar o sujeito que afirmou que o homem não voaria em um milhão de anos, apenas 9 dias antes de os irmãos Wright alçarem voo, chegar a esse nível exigiria o tipo de avanço que se vê no terceiro ato de filmes de ficção científica.
Então, vamos supor que esse avanço esteja próximo. Para quem detém ativos em uma blockchain protegida por criptografia de curvas elípticas, a única pergunta passa a ser: quanto tempo temos?
Na minha opinião, essa é a maneira mais útil de pensar no problema: não se a computação quântica acabará por quebrar a criptografia atual, mas se o setor conseguirá fazer a migração antes que isso se torne possível.
Nem todo o setor cripto
O algoritmo de Shor recupera uma chave privada a partir de uma chave pública. Se a chave pública não estiver exposta na blockchain, o algoritmo não terá dados com que trabalhar.
A maioria dos tipos modernos de endereço do Bitcoin mantém a chave pública oculta até que os fundos sejam gastos. P2PKH e P2WPKH aplicam hash à chave, enquanto P2PK e Taproot a expõem imediatamente. O risco se concentra nos endereços cuja chave já foi revelada por uma transação anterior.
A análise da blockchain mostra que mais de 34% de todos os bitcoins em circulação tiveram suas chaves públicas expostas. Isso representa aproximadamente 1,7 milhão de BTC distribuídos por cerca de 20.000 chaves expostas em endereços legados.
O Ethereum enfrenta uma versão mais ampla do mesmo problema. Toda conta de propriedade externa que já assinou uma transação expôs informações suficientes para que sua chave pública possa ser recuperada. Além das contas individuais, as assinaturas BLS dos validadores, os compromissos KZG e alguns sistemas de provas de conhecimento zero também dependem de criptografia que um computador quântico suficientemente poderoso poderia quebrar.
A migração já está em andamento
Os computadores quânticos ameaçam a criptografia RSA e de curvas elípticas nos setores bancário, de infraestrutura de chaves públicas (PKI) governamental e de comunicações seguras. Por isso, as blockchains são apenas parte de uma transição muito mais ampla.
Em agosto de 2024, o NIST finalizou seus três primeiros padrões de criptografia pós-quântica: ML-KEM para estabelecimento de chaves, e ML-DSA e SLH-DSA para assinaturas digitais. No âmbito das blockchains, o Bitcoin conta com a BIP-360, incorporada ao repositório oficial em fevereiro de 2026. Essa proposta eliminou a necessidade de expor uma chave pública clássica na blockchain.
O grupo de protocolo do Ethereum tem como meta implementar uma camada-base resistente a ataques quânticos até dezembro de 2029, abrangendo execução, consenso e dados.
Para concretizar isso, serão necessários cinco hard forks, com cerca de sete meses para cada um.
Esses prazos não são exclusivos do setor cripto. O Google estabeleceu uma meta interna para 2029 para concluir sua própria migração pós-quântica, enquanto o National Cyber Security Centre do Reino Unido definiu 2035 como prazo para a conclusão. Portanto, as redes blockchain estão migrando como parte de uma transição criptográfica muito mais ampla, e não em resposta a uma ameaça exclusiva do setor cripto.
A matemática dos prazos
Um relatório do Citigroup publicado no início deste ano estimou em 19-34% a probabilidade de surgir, até 2034, um computador quântico capaz de comprometer a criptografia.
Os planos de migração da maioria das blockchains têm como meta concluir o processo antes de 2034; por isso, atualmente, a corrida favorece os defensores.
Acredito que é aqui que o pânico atual do setor cripto erra na avaliação dos prazos. A ameaça quântica é real, mas o prazo relevante não é o dia em que um computador quântico entrar em operação. É o prazo para transferir os ativos e a infraestrutura vulneráveis antes que isso aconteça.
A única preocupação agora é a brecha de coletar dados hoje e descriptografá-los depois. Um invasor pode catalogar chaves públicas expostas hoje e tentar recuperá-las quando houver uma máquina capaz de fazê-lo.
É por isso que o planejamento da migração não pode esperar até a chegada dos computadores quânticos. Quando eles chegarem, todas as chaves expostas já estarão em risco.
O que podemos fazer agora
Para a maioria dos usuários hoje, phishing, assinatura maliciosa de transações em dApps, firmware comprometido e baixa entropia na geração de chaves têm muito mais probabilidade de lhes causar prejuízo financeiro do que um computador quântico.
A postura sensata é considerar os dois fatos ao mesmo tempo. Reforce as defesas contra os ataques atuais. Pare de reutilizar endereços. Use um software de carteira que, por padrão, adote tipos de saída que ocultam as chaves públicas. E acompanhe os prazos da migração.












